CERIMÔNIA DE QUEIMA DA PEÇA EQUILÍBRIO *
Valdir Emanoel de Colo
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DISCURSO
1.
A intenção original nesta peça era evidenciar o comportamento
dela em relação às leis da física, relegando a
segundo plano seu acabamento perante prováveis convenções
estéticas, entretanto, foram surgindo no decorrer de sua execução
diversas metáforas, as quais descrevemos por escrito:
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A metáfora da Arte com vida própria, pois acreditamos que a
Arte não deve ser um mero resultado final de um projeto específico,
mas sim um trabalho que dialoga com seu autor numa linguagem subliminar e
a ele faz pedidos e sugestões que precisam ser ompreendidos e acatados
para que o resultado final transcenda os objetivos primeiros de sua concepção.
Estamos falando de Dialética da Arte. Aceitamos como prova disto a
própria evolução da confecção da peça
em questão, a qual deveria chamar-se, a princípio, AR, pelo
seu aspecto de setas apontando para o Cosmo, aludindo quão distante
pode estar a perfeição, ou por fazer lembrar alguma coisa que
deseja alçar vôo para libertar-se das leis que a mantém
prisioneira do próprio peso, também pelo fato de ter sido apresentada
juntamente com outra peça que recebeu o nome de ÁGUA, fazendo
assim uma dupla com nomes que, de alguma forma, se relacionem, mas a força
dos acontecimentos e do processo dialético ocorrido durante sua elaboração,
nos levou a renomeá-la como EQUILIBRIO. Não nos custa muito
oferecer outro exemplo histórico, o de Michelangelo, que após
concluir a obra MOISES, exclamou: parla! O que cria possibilidades diversas
de interpretação, sendo uma delas, e talvez a mais coerente,
o mesmo processo dialético que comumente ocorre durante a execução
de uma obra de Arte, chegando, neste caso, à esfera da verbalização.
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A metáfora do verniz social, tantas vezes aplicado sobre uma infinidade
de imperfeições e tantas outras vezes sobre as podridões,
tentando tirar dali algum brilho que nunca existiu de forma genuína.
·
A metáfora arquetípica de Deus na condição de
referencial do eixo de equilíbrio dos seres humanos, capaz de reconduzi-los
a uma posição de estabilidade.
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O próprio processo de execução da peça EQUILIBRIO
tornou-se outra metáfora por descrever como podem se dar os desvios
no curso natural dos acontecimentos através da interferência
humana e suas conseqüências, positivas ou negativas, visto que
os pedaços que a compõem tinham como destino o lixo. Nossa intervenção
criou um desvio neste percurso. Agora, depois de cumprido o objetivo que ditatorialmente
lhe impusemos, devolvemo-la ao destino original.
(Momento da queima).
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"OFF"
2.
Para esta peça recebemos orientação do catedrático
examinador para modificar alguns detalhes, o que foi, por causa de nossa condição
de acadêmico, prontamente acatado, mas estes faziam parte da metáfora
visual que fala
das imperfeições características dos seres humanos que
preferem envernizar-se do que corrigir-se.
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3.
Não pretendemos, em hipótese alguma, fazer desta cerimônia
uma espécie de protesto excêntrico, mas sim torná-la um
ato emblemático que fique registrado de forma indelével nas
memórias de todos que conseguirem alcançar seu significado essencial.
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MANIFESTO DE VIDA E MORTE OU MORTE E VIDA
Parece
paradoxal, mas devolvemos esta escultura ao percurso do lixo exatamente para
criticar o modelo de criação de coisas que são feitas
sem nenhuma preocupação com uma função pós-uso,
ou seja, para se tornarem lixo.
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Ao
mesmo tempo lançamo-la à condição de existência
virtual para criticar a virtualidade que domina cada vez mais o nosso mundo
nos privando da experiência legitima, única capaz de tocar a
sensibilidade humana de modo verdadeiro.
Conscientes
dos gigantescos benefícios que estamos alcançando neste momento
da história da humanidade, queremos com este manifesto, chamar a atenção
para os aspectos extremamente negativos do modo de produção
no qual estamos submetidos, e porque não dizer cativos.
Falamos
do caráter de indústria do lixo, capaz de produzir e lançar
diariamente toneladas de rejeitos e detritos, transformando grandes áreas
do nosso meio ambiente em gigantescos monturos. Pior ainda é que isto
se estende ao campo das idéias, pois o mundo está abarrotado
de prolixidades, distorções, idéias falsas e maus exemplos
em arranjos e desarranjos agravados por causa da deficiência ou até
mesmo do colapso nos sistemas de ensino dos países menos desenvolvidos.
Conseqüências de descaso do poder público que atua miseravelmente
nas esferas menos favorecidas da sociedade, sendo assim causador direto do
estado de tensão em que as pessoas são obrigadas a viver. Por
outro lado, a mídia em todas as suas esferas de atuação,
que poderia desempenhar um papel de colaboradora na construção
da cultura e do conhecimento, não raro, prefere sustentar um jogo de
interesses ainda pior, o escravista-dissimulado que utiliza o capital econômico
como instrumento de poder. Altamente especializado na arte de confundir nosso
senso de liberdade, é capaz de seduzir as pessoas desavisadas induzindo-as
a erros gravíssimos, tais como: o consumismo desenfreado, a banalização
da violência e da morte, a falta de respeito com os semelhantes e com
a natureza, desprezo à boa educação e os bons modos,
o gosto pelas más conversações, dificultando a prevenção
das conseqüências devastadoras, as quais se manifestam no diversos
tipos de violência que povoam diariamente os noticiários.
Nós,
universitários, que teremos múltiplas oportunidades na área
da criação, não só das coisas materiais, mas também
das imateriais, poderemos ou não recriar nossos modos de fazer o mundo
e o ambiente em que vivemos, conscientes do risco que paira sobre nossas cabeças,
da condenação à miséria em todos os sentidos,
um sem número de pessoas que permanecem incapacitadas de raciocinar
coerentemente por conta própria, por causas que já descrevemos
e tantas outras que não lembramos de considerar ou que não tenham
chegado ainda ao nosso conhecimento.
Não
podemos ignorar nossa situação como espécie biológica
no planeta. Todas as espécies, semi-racionais, irracionais ou inconscientes,
têm mecanismos de perpetuação da própria espécie.
A nossa, que se julga racional, deveria ter planejamentos coerentes para a
garantir ao menos a preservação e não se encaminhar à
extinção pela própria irracionalidade, haja visto que
a natureza tem seus próprios mecanismos de auto-regulção
e tem se manifestado em resposta às imensas agressões que temos
lhe imposto sistematicamente.
Para
finalizar queremos lançar uma questão de coerência: para
solucionar um problema, o que precisa ser atacado prioritariamente, seus efeitos,
os acessórios potencializadores dos efeitos, os agentes do problema
ou as causas verdadeiras que desencadeiam o processo?
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*Proposta apresentada em 29 de novembro de 2005 para a disciplina Plástica II, ministrada pelo prof. Paulo Cheida Sans, do Curso de Artes Visuais da PUC-Campinas.
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