CERIMÔNIA DE QUEIMA DA PEÇA EQUILÍBRIO *

Valdir Emanoel de Colo

Foto: Paulo Cheida Sans

Valdir Emanoel de Colo
"Equilíbrio"
Construção em madeira/Pintura automotiva

        DISCURSO

        1. A intenção original nesta peça era evidenciar o comportamento dela em relação às leis da física, relegando a segundo plano seu acabamento perante prováveis convenções estéticas, entretanto, foram surgindo no decorrer de sua execução diversas metáforas, as quais descrevemos por escrito:
        · A metáfora da Arte com vida própria, pois acreditamos que a Arte não deve ser um mero resultado final de um projeto específico, mas sim um trabalho que dialoga com seu autor numa linguagem subliminar e a ele faz pedidos e sugestões que precisam ser ompreendidos e acatados para que o resultado final transcenda os objetivos primeiros de sua concepção. Estamos falando de Dialética da Arte. Aceitamos como prova disto a própria evolução da confecção da peça em questão, a qual deveria chamar-se, a princípio, AR, pelo seu aspecto de setas apontando para o Cosmo, aludindo quão distante pode estar a perfeição, ou por fazer lembrar alguma coisa que deseja alçar vôo para libertar-se das leis que a mantém prisioneira do próprio peso, também pelo fato de ter sido apresentada juntamente com outra peça que recebeu o nome de ÁGUA, fazendo assim uma dupla com nomes que, de alguma forma, se relacionem, mas a força dos acontecimentos e do processo dialético ocorrido durante sua elaboração, nos levou a renomeá-la como EQUILIBRIO. Não nos custa muito oferecer outro exemplo histórico, o de Michelangelo, que após concluir a obra MOISES, exclamou: parla! O que cria possibilidades diversas de interpretação, sendo uma delas, e talvez a mais coerente, o mesmo processo dialético que comumente ocorre durante a execução de uma obra de Arte, chegando, neste caso, à esfera da verbalização.
        · A metáfora do verniz social, tantas vezes aplicado sobre uma infinidade de imperfeições e tantas outras vezes sobre as podridões, tentando tirar dali algum brilho que nunca existiu de forma genuína.
        · A metáfora arquetípica de Deus na condição de referencial do eixo de equilíbrio dos seres humanos, capaz de reconduzi-los a uma posição de estabilidade.
        · O próprio processo de execução da peça EQUILIBRIO tornou-se outra metáfora por descrever como podem se dar os desvios no curso natural dos acontecimentos através da interferência humana e suas conseqüências, positivas ou negativas, visto que os pedaços que a compõem tinham como destino o lixo. Nossa intervenção criou um desvio neste percurso. Agora, depois de cumprido o objetivo que ditatorialmente lhe impusemos, devolvemo-la ao destino original.

(Momento da queima).

Foto: Paulo Cheida Sans

Valdir Emanoel de Colo
Leitura do discurso
Fase de queima da peça "Equilíbrio"

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"OFF"

        2. Para esta peça recebemos orientação do catedrático examinador para modificar alguns detalhes, o que foi, por causa de nossa condição de acadêmico, prontamente acatado, mas estes faziam parte da metáfora visual que fala
das imperfeições características dos seres humanos que preferem envernizar-se do que corrigir-se.
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        3. Não pretendemos, em hipótese alguma, fazer desta cerimônia uma espécie de protesto excêntrico, mas sim torná-la um ato emblemático que fique registrado de forma indelével nas memórias de todos que conseguirem alcançar seu significado essencial.

Foto: Paulo Cheida Sans

Fase de queima da peça "Equilíbrio"

MANIFESTO DE VIDA E MORTE OU MORTE E VIDA


        Parece paradoxal, mas devolvemos esta escultura ao percurso do lixo exatamente para criticar o modelo de criação de coisas que são feitas sem nenhuma preocupação com uma função pós-uso, ou seja, para se tornarem lixo.

Foto: Paulo Cheida Sans

Restos da peça Equilíbrio

        Ao mesmo tempo lançamo-la à condição de existência virtual para criticar a virtualidade que domina cada vez mais o nosso mundo nos privando da experiência legitima, única capaz de tocar a sensibilidade humana de modo verdadeiro.
        Conscientes dos gigantescos benefícios que estamos alcançando neste momento da história da humanidade, queremos com este manifesto, chamar a atenção para os aspectos extremamente negativos do modo de produção no qual estamos submetidos, e porque não dizer cativos.
        Falamos do caráter de indústria do lixo, capaz de produzir e lançar diariamente toneladas de rejeitos e detritos, transformando grandes áreas do nosso meio ambiente em gigantescos monturos. Pior ainda é que isto se estende ao campo das idéias, pois o mundo está abarrotado de prolixidades, distorções, idéias falsas e maus exemplos em arranjos e desarranjos agravados por causa da deficiência ou até mesmo do colapso nos sistemas de ensino dos países menos desenvolvidos. Conseqüências de descaso do poder público que atua miseravelmente nas esferas menos favorecidas da sociedade, sendo assim causador direto do estado de tensão em que as pessoas são obrigadas a viver. Por outro lado, a mídia em todas as suas esferas de atuação, que poderia desempenhar um papel de colaboradora na construção da cultura e do conhecimento, não raro, prefere sustentar um jogo de interesses ainda pior, o escravista-dissimulado que utiliza o capital econômico como instrumento de poder. Altamente especializado na arte de confundir nosso senso de liberdade, é capaz de seduzir as pessoas desavisadas induzindo-as a erros gravíssimos, tais como: o consumismo desenfreado, a banalização da violência e da morte, a falta de respeito com os semelhantes e com a natureza, desprezo à boa educação e os bons modos, o gosto pelas más conversações, dificultando a prevenção das conseqüências devastadoras, as quais se manifestam no diversos tipos de violência que povoam diariamente os noticiários.
        Nós, universitários, que teremos múltiplas oportunidades na área da criação, não só das coisas materiais, mas também das imateriais, poderemos ou não recriar nossos modos de fazer o mundo e o ambiente em que vivemos, conscientes do risco que paira sobre nossas cabeças, da condenação à miséria em todos os sentidos, um sem número de pessoas que permanecem incapacitadas de raciocinar coerentemente por conta própria, por causas que já descrevemos e tantas outras que não lembramos de considerar ou que não tenham chegado ainda ao nosso conhecimento.
        Não podemos ignorar nossa situação como espécie biológica no planeta. Todas as espécies, semi-racionais, irracionais ou inconscientes, têm mecanismos de perpetuação da própria espécie. A nossa, que se julga racional, deveria ter planejamentos coerentes para a garantir ao menos a preservação e não se encaminhar à extinção pela própria irracionalidade, haja visto que a natureza tem seus próprios mecanismos de auto-regulção e tem se manifestado em resposta às imensas agressões que temos lhe imposto sistematicamente.
        Para finalizar queremos lançar uma questão de coerência: para solucionar um problema, o que precisa ser atacado prioritariamente, seus efeitos, os acessórios potencializadores dos efeitos, os agentes do problema ou as causas verdadeiras que desencadeiam o processo?

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*Proposta apresentada em 29 de novembro de 2005 para a disciplina Plástica II, ministrada pelo prof. Paulo Cheida Sans, do Curso de Artes Visuais da PUC-Campinas.