O BARRO BARROCO DE HÉLIO SIQUEIRA*
Ângelo Oswaldo de Araújo
Santos
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Foto:
Divulgação
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Hélio
Siqueira
"Madona Sinistra"
Cerâmica
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Hélio Siqueira
é artista que investiga, com inventividade e vigor, as possibilidades
da criação plástica. No espaço pictório,
alcançou largo reconhecimento. Trabalha a pintura como matéria
viva, com o qual mantém sintonia plena no momento em que se expande
sobre o suporte. Essa interação igualmente aparece nos objetos
cerâmicos que o autor passou a produzir, em linha simultânea,
mas com uma intensidade que muitas vezes parece conferir ao barro primazia
sobre o óleo. Este seria, hoje, o foco primeiro de sua atenção.
Tanto quanto as queimas se multiplicam, o ceramista se mostra mais seguro
da técnica e afinado com a linguagem, construindo uma expressão
que se singulariza.
Há gestos e formas que se articulam sobre a terra com algum
traço que evoca a plasticidade de um Antônio Poteiro, de quem
o artista de Uberaba se aproximou, com admiração, em atividades
de oficina. Logo, porém, a mão revela autonomia, ao manifestar
uma vocação própria, seja no campo morfológico,
seja no plano temático.
Vejo, especialmente, o novo flos sactorum, que reúne,
em extensa procissão, os santos da devoção tradicional,
numa retomada surpreendente e instigante de visualidade barroca do imaginário
mineiro. O acento expressionista que se imprime na modelagem remete ao espectador
ao ritmo barroco das primeiras terracotas brasileiras. Virgens e oragos perfilam
o martírio e a dor, a angustia e o êxtase, buscando aleatoriamente,
na crepitação do forno, os tons altos e baixos que, com espantosa
adequação, vêm acentuar a dramaticidade de cada figura.
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Foto:
Divulgação
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Hélio
Siqueira
"Madre y Niño"
Cerâmica
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O acaso do cozimento jamais será abolido,
mas o artista começa a decifrar seus segredos, ao obter o máximo
de proveito das potencialidades cromáticas da parceria com o fogo.
Esses deuses lares ou tânagras do nosso tempo aparecem na
obra de Hélio Siqueira como uma evidência a mais de que as matrizes
barroquistas da cultura que se aprofundou nas Minas e se espalhou pelos Gerais
continuam a enredar o fazer artístico. Levados a um oratório,
tal como nas antigas lapinhas coloniais, ou tomados sobretudo individualmente,
os santos de cerâmica se impõem na condição de
resultado escultórico e comovente mergulho arqueológico na memória.
Na melhor vertente do diálogo proposto pela contemporaneidade,
heranã e invenção engendram a legião dos santos
na cerâmica de Hélio Siqueira. O pintor se entrega à técnica
pela qual os brasileiros por primeiro se exprimiram para dela extrair originalidade.
As suas imagens se associal à boneca Xavante, à Senhora da Conceição
paulistana dos Seiscentos (tal a Aparecida) e ao cachimbo de barro antropomórfico
dos quilombos. Raiz e antena, juntos, indicam o caminho que conduz o artista
à plenitude da criação.
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Foto:
Divulgação
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Hélio
Siqueira
"Altar Nossa Senhora dos Aflitos"
Cerâmica e ferro
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* Publicado originalmente no catálogo da mostra, O Barro Barroco de
Hélio Siqueira, realizada de 16 de março a 14 de abril de 2005
no Conjunto Cultural da Caixa em Brasília.