GRAVURAS DE LÍVIO ABRAMO NO INSTITUTO TOMIE OHTAKE

Paulo Cheida Sans*

        Na ocasião em que atuei como um dos curadores da mostra "Gravuras", organizada pela PUC-Campinas e realizada no Festival Latino-Americano de Arte e Cultura - UnB, em Brasília, em 1987, convidei Lívio Abramo para ter participação especial, mérito justo por sua carreira como artista.
        Lívio, de Assunção, Paraguai, procurou me localizar e enviar carta de agradecimento por ter tido tal distinção. Em suas palavras, pude perceber a alegria e surpresa por ter sido convidado embora merecesse e soubesse de sua importância no cenário cultural latino-americano.
        Algumas de suas palavras: "Creia, prezado Paulo, que essa homenagem foi algo inesperado para mim e por conseguinte tanto mais grata para mim. O fato de eu - exilado voluntário - ter sido lembrado pelos jovens gravadores do Brasil em uma ocasião tão especial como essa do Festival de Brasília é-me sumamente gratificante" (Comunicação pessoal).
        Lembro-me que, embora Lívio tivesse importância significativa na história da arte brasileira, a gravura passou por maus momentos no contexto expositivo do país, sendo colocada, involuntariamente, num plano inferior em comparação com as outras modalidades. Raramente um gravador alcançaria um patamar de reconhecimento pela sua carreira artística. Claro que os artistas de primeira "estirpe", os especialistas da arte como os críticos, historiadores e alguns poucos estudiosos sobre a cultura brasileira, sabiam da importância da gravura na arte e, conseqüentemente, a de Lívio Abramo. Mas, na época, seu nome não era lembrado à altura de sua importância.
        Exceções aconteceram, como a mostra comemorativa de seu 80º aniversário, onde o Centro Cultural São Paulo, cuja Divisão de Artes Plásticas era dirigida por Renina Katz, realizou uma bela retrospectiva de sua obra, em 1983. Contudo, seu nome não era lembrado e citado como é atualmente, após sua morte, em 1992.
        Hoje, assim como diz o crítico Olívio Tavares de Araújo "o trabalho de Livio Abramo é muito falado, mas pouco visto." Olívio assina a curadoria da mostra com 78 gravuras de Lívio Abramo que acontece no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Durante a mostra, no próximo dia 25 de abril, o crítico também lançará em homenagem ao artista, a edição de um livro, "A Gravura de Lívio Abramo", editado pelo próprio Instituto.
        Para a realização do livro, Olívio pesquisou durante três anos. O crítico teve oportunidade de visitar o artista no Paraguai, país que Lívio escolheu para residir nos seus últimos 30 anos. Olívio Tavares de Araújo menciona: "No início, Lívio trabalha com temas tradicionais: o nu, a paisagem, a natureza; aos poucos essa perspectiva se transforma, em direção a obras que beiram a abstração. Era uma resposta pessoal ao que acontecia em seu entorno" (apud Longman, 2006).
        Conforme a proposta da curadoria, a mostra contempla os três blocos principais da produção de Lívio Abramo.
        O primeiro abrange a década de 30, enfocando temas nitidamente
brasileiros, transparecendo a influência expressionista. Vale conferir a série inspirada pela guerra civil espanhola, desenvolvida entre 1936 e 38.
        O segundo bloco focaliza a década de 40, com as ilustrações para o livro Pelo Sertão (1946- 48), de Afonso Arinos, abarcando até meados dos anos 50. Os temas são variados, abrangendo sobre os sertões brasileiros, a paisagem do Rio de Janeiro e cenas de macumba.
        O terceiro bloco contempla a produção que começa com a primeira visita
do artista ao Paraguai (1956) até perto de sua morte, em 1992. Na produção paraguaia, evidenciam dois temas principais: o velho casario despojado, as cidadezinhas e suas praças centrais, e as violentas chuvas do planalto.
        A constituição da mostra é uma junção, principalmente, dos acervos do bibliófilo José Mindlin, do MAM (Museu de Arte Moderna) e do MAC (Museu de Arte Contemporânea) paulistanos e do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros - USP). Na mostra está sendo exibido o documentário "Livio Abramo, Sempre", de 1989, com depoimentos do artista sobre seu trabalho e sobre seu relacionamento com o Partido Comunista, do qual foi membro até 1932.

Sobre Lívio Abramo

Foto: Reprodução
Lívio Abramo
"Brasil"
Xilogravura - 1954

        Lívio Abramo (1903-1992), natural de Araraquara, filho de pais italianos, é considerado um dos mestres da gravura moderna no Brasil. Dedicou-se ao desenho e à gravura, sobretudo à xilogravura, a partir de 1923, com uma produção ininterrupta por mais de 60 anos. Trabalhou na imprensa, como jornalista, fez ilustrações e era querido por muitos. Militante da esquerda, era admirado por sua coerência política. Irmão do jornalista Cláudio Abramo e da atriz Lélia Abramo, o artista destacava a influência familiar, sobretudo de seu avô materno, Bartolomeu Scarmagnan, um italiano anarquista que despertou nos netos a consciência política.
        O gosto pela gravura iniciou-se quando era estudante, na casa dos pais, ao admirar vinhetas gravadas em madeiras de autoria do gravador De Károlis, que ilustravam os poemas de um famoso poeta italiano. Contudo, a partir da visita à exposição dos grandes expressionistas alemães, em São Paulo, por volta de 1929, entusiasmou-se definitivamente pela gravura. O próprio artista disse:
        "De repente encontrei-me, deslumbrado, face a face com a fortíssima arte de Kaethe Kollwitz, Lionel Feininger, Shmidt-Rotluff, Erik Hekel, Emil Nolde, Barlach, Kirchner... todos àquela época, desconhecidos para mim mas que com a veemência de sua arte cheia de gritos de cor, de cólera, de paixão, expressavam a mesma revolta humana, a mesma ânsia de renovação que eu provava e que ressoou em minha consciência e em meus sentidos. Era essa a forma de expressão artística que eu procurava definir para mim mesmo" (Abramo, 1983, p. 7).
        Para Abramo, as gravuras alemãs tinham linhas e cores estridentes que provocavam os conceitos tradicionais da arte, oferecendo uma visão tensa e angustiada do homem, reflexo do dia-a-dia da época.

Foto: Reprodução
Lívio Abramo
"Paraguay"
Xilogravura - 1966

        Participou de vários Salões Paulistas de Belas-Artes a partir de 1935. Realizou a sua primeira individual em 1942. Recebeu "Medalha de Prata" no Salão Nacional de Belas Artes em 1948. Expôs individualmente na Galeria Palma, em Roma. Ilustrou com 27 xilogravuras o livro de contos de Afonso Arinos, "Pelo Sertão". Conquistou o prêmio de viagem ao Exterior no Salão Nacional de Belas-Artes , em 1950. Recebeu o Prêmio de melhor gravador da 2ª Bienal de São Paulo, em 1953. Integrou a sala brasileira nas Bienais de Veneza de 1950 e 1952. Continuou participando de exposições no exterior. No entanto, considerando a intensa dedicação à arte, o artista fez poucas individuais, sendo que até 1983 tinha realizado em torno de dez, quando em comemoração do seu 80° aniversário foi organizada uma homenagem ao mestre com uma exposição retrospectiva de sua obra gravada no Centro Cultural de São Paulo.
        Em mais de duas décadas antes de sua morte, Lívio desempenhou cargos profissionais e de ensino em Assunção, no Paraguai, a serviço do Itamarati, dirigindo o Setor de Artes Visuais da Missão Cultural Brasileira,atualmente nomeado Centro de Estudos Brasileiros.
        O artista sempre foi minucioso. Era capaz de refazer o trabalho se algum detalhe, quase imperceptível, não o satisfizesse. Seus temas iniciais eram a paisagem e a gente paulistana. Registrava a cidade de São Paulo, os sintomas da industrialização na cidade grande, a imigração e a migração nordestina. Focalizou o urbano com abordagens originais para a época. Observava as expressões, os gestos e os sentimentos das pessoas. Para isso, percorria os arredores de São Paulo, como Itapecerica da Serra, para encontrar "feições" que ficariam magistralmente registradas em suas xilogravuras.
        O seu trabalho surgia com o peso e a influência da provocante Semana de Arte Moderna em 22. As suas xilogravuras, como o próprio artista declarou, registravam os problemas humanos e sociais: "Àquela época não podia ser outra a maneira, senão impulsiva e apaixonada, por uma maneira expressionista" (apud Almeida, 1983, p.72).

Foto: Reprodução
Lívio Abramo
"Operário"
Xilogravura - 1935

        Entre tantas gravuras marcantes, embora a paisagem tenha presença preponderante em sua carreira, cito uma obra de sua fase inicial, que considero "divinamente" especial. Trata-se da xilogravura "Operário", de 1935, que traduz a temática social dessa fase. Com traços vigorosos e objetivos, contrastando o preto e o branco a fim de realçar a "expressão" e o "sentimento" da figura, retratou o proletário num clima de exaltação ao mesmo tempo em que trouxe à tona a força interior incansável do trabalhador. A imagem poética da rudez traduz com maestria uma época. Escolhi esta obra para ilustrar o cartaz da mostra "Gravuras", realizada em Brasília, em 1987, conforme mencionei no início do texto.
        Quando passou a morar em Assunção, iniciou a série "Paraguai". Com luminosidade e ritmos precisos, enfocou paisagens e o urbano do país. Sua produção ficou mais serena e pacífica, diferentemente das gravuras iniciais.

Foto: Divulgação
Lívio Abramo

        Lívio Abramo, Oswaldo Goeldi e Lasar Segall, são presenças imortais na história da gravura brasileira. Lívio foi autodidata. Estudou livros sobre artes depois de já estar fazendo gravuras. Contudo, sempre citava o nome de Adolp Kohler, mestre gravador alemão que trabalhou no Horto Florestal e o procurou no "Diário da Noite" por volta de 1940. Sobre as conversas com Kohler, Abramo disse: "ensinou-me várias coisas, que foram muito úteis: a facilitar o trabalho, mas não a gravar... Ensinou-me a tratar a madeira, a colar pedaços para fazer uma prancha grande, a lixar e a polir. Kohler lixava de uma maneira muito diferente de todo mundo..." (apud Beccari, 1983, p. 21).
        Abramo, foi professor de gravura da Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que ficava na Praça Roosevelt, nos anos 50. Lá, ensinou o ofício para dezenas de artistas, entre os quais, Dorothy Bastos, Savério Castelani, Anésia Pacheco Chaves, Ely Bueno, Edite Ximenez e Maria Bonomi (idem, p.23). Esta última foi sua aluna assistente. Em 1960, Bonomi foi convidada por Lívio para trabalhar com ele em seu recente Estúdio Gravura, montado para a produção de cartazes e impressos de eventos. A experiência durou até 1964, quando, com o golpe militar, o local foi invadido pela polícia e Lívio mudou-se para o Paraguai (Simões, 2006, p. 13).
        Encerrando, faço uso das palavras de Arnaldo Pedroso d'Horta: "... modéstia, firmeza, orgulho e autenticidade são os traços marcantes de Lívio Abramo e de sua arte. Não se vê, ao longo de seu trabalho, um só papel que não tenha sido riscado com emoção e convicção..." (1983, p. 26).


Serviço:

Exposição: Lívio Abramo
Curadoria: Olívio Tavares de Araújo
Data: de 14 de março a 14 de maio de 2006
Local: Instituto Tomie Ohtake
Endereço: Av. Faria Lima, 201 - Entrada pela Rua Coropés, 88 - Pinheiros - São Paulo, SP
Visitação: de terça a domingo das 11h às 20h
Informações: www.institutotomieohtake.org.br


Referências Bibliográficas

ABRAMO, Lívio. Comunicação pessoal. Assunção, Paraguai, 25 nov. 1887 (carta enviada a Paulo Cheida Sans).
_______. Lívio Abramo. In: Lívio Abramo: Xilogravuras. São Paulo, Centro Cultural São Paulo, 1983.
ALMEIDA, Miguel de. A pressa de Lívio Abramo, aos 80 anos. Folha de São Paulo, São Paulo, 26 jun. 1983, Ilustrada, p.72.
BECCARI, Vera d'Horta. A busca de uma nova linguagem para a gravura. In: Lívio Abramo: Xilogravuras. São Paulo, Centro Cultural São Paulo, 1983.
D'HORTA, Arnaldo Pedroso. Lívio Abramo. In: Lívio Abramo: Xilogravuras. São Paulo, Centro Cultural São Paulo, 1983.
LONGMAN, Gabriela. Gravuras de Lívio Abramo ganham mostra em SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u58714.shtml. Acesso: 14 mar. 2006.
SIMÕES, Alessandra. Maria Bonomi - uma vida dedicada à arte. Revista Bien'Art, São Paulo, p. 13, fev. 2006.

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* Curador do Acervo Olho Latino
Professor da Faculdade de Artes Visuais - CLC - PUC-Campinas.