O IMORTAL ALDEMIR MARTINS

Paulo Cheida Sans*

        O artista plástico Aldemir Martins morreu neste domingo, 5 de fevereiro, em sua residência, no bairro Ibirapuera, em São Paulo. O velório aconteceu na Assembléia Legislativa de São Paulo e o sepultamento no cemitério do Campo Grande, em Santo Amaro.

Foto: Reprodução

Aldemir Martins
Bumba Meu Boi
1981

        Aldemir Martins nasceu em Ingazeiras, no Ceará, em 8 de novembro de 1922, ano da Semana de Arte Moderna. Mostrou talento desde menino e adolescência, tendo exercido a função de orientador artístico da classe no período colegial. Na ocasião em que serviu o exército, de 1941 a 1945, desenhou o mapa aerofotogramétrico de Fortaleza e venceu um concurso nas Oficinas de Material Bélico, sendo nomeado "Cabo Pintor". Nessa época, freqüentou e estimulou o meio artístico no Ceará, chegando a participar da criação do Grupo ARTYS e da SCAP - Sociedade Cearense de Artistas Plásticos, junto com outros pintores, como Mário Barata, Antonio Bandeira e João Siqueira.
        Em 1945, deixou o Ceará, mudando-se para o Rio de janeiro e, em 1946, para São Paulo. Nos anos de 1960 e 61, viveu em Roma, retornando definitivamente para o Brasil.
Artista plástico talentoso, possuidor de extrema habilidade técnica, foi pintor, desenhista, gravador, ceramista, escultor e também trabalhou como ilustrador do Jornal da Tarde (JT), nos anos 70.
        Participou de diversas exposições no país e no exterior, revelando produção artística intensa, peculiar e inconfundível. Seu estilo foi cobiçado e imitado, tal como geralmente acontece com os artistas de primeira estirpe. Inquieto artisticamente, inovou, reinventou e registrou com traços fortes e tons vibrantes uma impressionante vitalidade de produção.
        Aldemir Martins soube registrar de modo magistral o Brasil. Seus temas inspirados em cenas cotidianas e na natureza brasileira estão perpetuados em suas criações. Os motivos de seu repertório visual são variados, enfocando gatos, pássaros, galos, peixes, cangaceiros, cavalos, flores, frutas, entre outras inspirações. Deixa uma vasta obra em que registrou a paisagem e o homem brasileiro, sobretudo o nordestino. O seu modo autêntico de criar em variadas possibilidades técnicas o torna uma das principais referências da história da arte brasileira. Mostrou sua versatilidade até mesmo criando em suportes inusitados, como caixas de charuto e fôrmas de pizza.
        Em meados do ano passado o MASP fez uma homenagem ao artista com a retrospectiva Aldemir Martins por Aldemir Martins - Sete décadas de Sucessos Artísticos, realizando o lançamento do livro com o mesmo nome, com prefácio de Emanoel Araújo, artista plástico e amigo do artista há muitos anos, contendo textos de Anna Maria Martins, Benemar Guimarães, Carlos Soulié S. do Amaral, e Cora Bast Martins (esposa do artista), além de introdução do arquiteto Júlio Neves, Presidente do Masp.
        Para a realização do livro foi necessário um extenso trabalho de pesquisa incluindo a bibliografia do artista, suas exposições e seu trabalho em moda, joalheria, artes-gráficas, tapeçaria, etc., além de entrevistas onde o artista fala de sua própria carreira.
        Editado por Benemar Guimarães, o livro é composto de 256 páginas, com cerca de 410 ilustrações, reunindo as várias etapas de produção do artista, inclusive, algumas que mostram a sua admiração pelas obras de Picasso e Miró.
        Vale conferir a bela e representativa publicação, que surgiu em bom momento, registrando as fases e depoimentos da vasta obra de um dos mais expressivos artistas plásticos brasileiros de todos os tempos.

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*Curador do Acervo Olho Latino
Professor da Faculdade de Artes Visuais - CLC - PUC-Campinas.