A INTEGRIDADE PLÁSTICA E VISÃO ROMÂNTICA DE
REGIANE CAPP COUTO BUCCIOLI

Paulo Cheida Sans*

Foto: Divulgação
Abrimento
90 X 120
acrílico sobre painel

       Regiane Capp Couto Buccioli formou-se em Educação Artística nas habilitações Desenho (1990) e Artes Plásticas (1991) pela PUC-Campinas. Cursou pós-graduação (Lato-Sensu) em “Arte, Ensino e Produção” na mesma universidade em 1998. Participou de vários cursos de artes. Estuda pintura com a artista plástica Ana Maria Moreira Bento desde 1990. É professora do Colégio Ave Maria e “pintura óleo sobre tela” no Ateliê Essência da Arte em Campinas. Convidada, passou a integrar o elenco de artistas do Núcleo de Arte Olho Latino, em 2004.
       O núcleo agrega artistas de Campinas e do interior do Estado de São Paulo, promovendo e realizando, de modo constante, diversas exposições temáticas no âmbito do contemporâneo. A participação da artista nesse novo modo de atuação tem demonstrado talento e determinação em suas criações.
       A sua produção artística vem pautada numa trajetória acadêmica, por meio de naturezas mortas, marinhas e casarios, perfazendo um repertório de “clássicos”. Nas pinturas dessa fase, a artista já demonstrava uma técnica peculiar, principalmente no ritmo das pincelas e junções das cores que aludiam, sobretudo nos planos de fundo, à sensação de “leveza”.
       O seu dinamismo e interesse em se aperfeiçoar, participando de diversos cursos da área de artes, consolidaram ainda mais o conhecimento e domínio do métier artístico, demonstrando maestria em lidar com quaisquer possibilidades técnicas, tanto com o uso do pincel quanto com o manuseio da espátula. Consegue efeitos diversos em suas pinturas, valorizando texturas e outros efeitos pictóricos.
       A fase atual da artista mantém indícios de sua habilidade desenvolvida ao longo do tempo; entretanto, deixa transparecer com mais evidência uma nova vertente ideativa que vai além da representação visual de alguma cena ou objeto retratado. Impulsionada pela cadência temática das recentes mostras de que tem participado, as suas criações configuram ainda mais o seu estilo inconfundível, valorizando a pintura mesmo quando esta faz parte de alguma instalação com outros objetos.

Foto: Divulgação
O Velório da Sardinha
Instalação

       Conhecer a participação dela nas mostras do Núcleo Olho Latino serve como um meio eficiente para entender a sua produção artística dessa nova etapa criativa. Regiane é uma apreciadora sensível de obras dos grandes mestres. Gosta de fazer releituras de obras memoráveis, interpretando-as de modo significativo com seu toque pessoal. Na mostra “Interseções”1, a artista expôs uma pintura onde um anjo acolhe uma figura feminina com acalento e carinho, perfazendo uma cena poética e lírica. Esta obra é uma interpretação da escultura em mármore, esculpida pelo italiano Giulio Starace, que retrata o amor de um casal de jovens abraçados, instalada na “Fonte dos Amores” em Poços de Caldas, MG.
Na mostra “Campinas Revisitada”2, apresentou a obra intitulada “Campinas, Hoje e Sempre”, interpretando, de modo soberbo, a grandiosidade da cidade numa visão amena e especial de quem vive e convive com esses “símbolos” no dia a dia. Soube representar a cidade a partir de tópicos culturais significativos, harmonizando imagens, entre as quais a Torre do Castelo, a Caravela da Lagoa do Taquaral, o Bonde - como representação de uma Campinas de outrora - a antiga Estação da Fepasa (hoje Estação Cultura), os monumentos de Carlos Gomes e do Bicentenário de Campinas (criado por Lélio Coluccini) e também a fachada do Museu de Arte Contemporânea de Campinas. As imagens coadunadas na pintura com texturas sintetizaram, de modo marcante, a essência de épocas que transformaram a cidade numa metrópole.
       Mesmo diante de situações temáticas que parecem induzir a outros caminhos, Regiane mantém uma coerência criativa impecável como demonstrou na instalação “Paz e Guerra”, apresentada na mostra “As Mil e Uma Noites”3. Para compor a obra, fez três pinturas de grandes dimensões que serviram como o cerne da proposta, formando faces da representação de uma cultura distinta.
       Num dos lados representou a beleza da odalisca. Noutro mostrou a cultura rica com luxúrias em contraste com a dificuldade de ordem natural, evidenciando a escassez da água. Na outra face representou os soldados americanos, com gotas de sangue em profusão. No conjunto, uniu as pinturas e toda a sorte de elementos que representam segmentos da história, que foram enriquecidos por peças que ela mesma produziu e recriou. Assim, o candelabro e a lâmpada do Aladim em consonância com uma metralhadora mostravam aspectos antagônicos de um mesmo mundo, colocando a tradição cultural em contraste com a destruição de um país.
       Montou cenas com aparatos de uma cultura rica, evidenciado pelo brilho dos ornamentos contracenando com o armamento próprio de uma inescrupulosa guerra. Soube captar e traduzir a riqueza de uma tradição de um povo diante do pavor e conflito da destruição intrínseca da guerra.

Foto: Divulgação
Brincadeira de Criança
200X200
instalação

       Na mostra “Um Minuto Antes” 4, Regiane participou com duas pinturas, onde a ampulheta era o elemento principal. Na obra “Tempo I” a areia parecia correr de modo ininterrupto, irreparável. Na “Tempo II” enfocou a “segmentação” do momento, como se os “problemas” que cada um de nós enfrentamos e tentamos solucionar fossem somados de modo fragmentados na nossa passagem de vida.
       Na mostra “Parábolas para o Século XXIII” 5, a artista apresentou outra instalação intitulada “Vossa palavra é a luz do meu caminho”, colocando a B íblia como foco principal, elucidando a palavra divina como algo vivo que deve ser seguido. A palavra é a luz, é como a chama de uma vela. A artista parece registrar em imagens a seguinte mensagem de Gaston Bachelard:
“Com que facilidade o sonhador do mundo passa de sua pequenina luz às grandes luminárias do céu!”. 6
       Na III Bienal do Esquisito 7, Regiane soube muito bem homenagear o artista espanhol Goya, expondo “O velório da sardinha”. Criou um velório com caixão funerário repleto de inscrições e detalhes em texturas que lembravam inscrições rupestres, compondo o ambiente com bandeirolas e ornatos diversos. Embora o senso da “morte” estivesse presente, predominou o “humor” caracterizado pelo conjunto da instalação, com peixes dourados que cercavam o caixão, velando a suposta “morte da sardinha”. Soube transpor a sátira típica da obra de Goya para os tempos atuais.
Na mostra “Orifícios” 8, a artista apresentou a obra “Abrimentos”, pintura acrílica com relevos contendo pequenas aberturas com vazados em formas geométricas. Utilizou uma variação de cores com predominância das primárias, interagindo com um grafismo solto e abrangente sobre toda a superfície. Esta obra, feita no final de 2005, mostra que a artista está iniciando uma nova fase, resultante de um constante processo de polimento expressivo.
Em suas relações com as cores, Regiane tem uma característica singular. As predileções pelos ocres, consignados com azuis e brancos, e também o verde veronese são notórias. Com leveza e segurança a artista consolida sua obra com texturas. As cores necessárias ao eco ou à tensão, que julgou conveniente introduzir na composição de suas obras, são invocadas e acrescentadas no local adequado para expressar a espontaneidade e a mensagem proposta.
Regiane sabe lidar e gosta de atuar tanto no campo figurativo quanto no abstrato. A gama de suas preferências temáticas evidencia a sua sensibilidade e lucidez criativa. Enriquece seu trabalho mediante a valorização de claros e escuros e a colocação adequada dos meios tons, graças ao manuseio técnico eficiente.
O desenho, a pintura e quaisquer outras possibilidades de seu repertório expressivo têm a marca de sua personalidade. Desde o início de carreira até a produção de suas obras mais recentes percorre um caminho íntegro. Regiane aprofundou e vem alargando os próprios horizontes de interpretar o universo, numa visão poética e romântica da realidade.

Foto: Divulgação
Tempo 2
60X80
acrílico sobre tela

Notas de Rodapé

1 - Mostra realizada de 24 de junho a 04 de julho de 2004 na Galeria do Círculo Militar em Campinas, SP.

2 - Mostra realizada de 13 de julho a 29 de agosto de 2004 no Túnel de Pedestres da Vila Industrial em Campinas, SP.

3 - Mostra realizada de 09 a 30 de outubro de 2004 no Centro de Exposições do Parque Municipal “Antônio Carbonari” em Jundiaí, SP.

4 - Mostra realizada de 13 a 20 de novembro de 2004 no Centro de Exposições do Parque Municipal “Antônio Carbonari” em Jundiaí, SP.

5 - Mostra realizada de 07 a 28 de maio de 2005 na Capela do Morumbi em São Paulo, SP

6 - A chama de uma vela, p. 28.

7 - Mostra realizada de 22 de outubro a 06 de novembro de 2005 no SESC Campinas, SP.

8 - Mostra realizada de 12 a 30 de novembro de 2005 no Tote Espaço Cultural em Campinas, SP.

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* Publicado originalmente na Revista Saráo - v4. número 6 - 2006 - Centro de Memória da Unicamp.
http://www.centrodememoria.unicamp.br/sarao/ -

** Curador do Acervo Olho Latino
Professor da Faculdade de Artes Visuais - CLC - PUC-Campinas.