SOBRE AS RUÍNAS DO MUSEU*
Almandrade**
"O museu constrói uma história cultural ao tratar seus objetos independentemente tanto das condições materiais da própria época desses objetos quanto das do presente"
Douglas Crimp
Um
olhar crítico sobre o mundo misterioso dos museus e das obras de arte.
SOBRE AS REINAS DO MUSEU é uma coletânea de ensaios publicados
em revistas e catálogos de exposições que têm como
tema central o fenômeno dos museus de arte na modernidade e a passagem
da modernidade para a pós-modernidade. Sem desconhecer a estreita relação
entre o lugar e o sentido da obra de arte, ou seja, o contexto onde a obra
é exposta é uma espécie de moldura dos seus significados.
O autor propõe uma análise arqueológica da instituição
museu como fez Michel Foucault com o hospício, a clínica e a
prisão, apoiado no materialismo histórico destilado por Walter
Benjamin, como se o museu fosse também um espaço de exclusões
e confinamento de uma prática cultural. Explora a história da
instituição para mostrar o seu papel na produção
e na leitura da arte na cultura moderna.
O museu que tem sua origem
no ato de colecionar e preservar a "herança estética da
humanidade" emerge com o desenvolvimento da moderna sociedade burguesa.
As pinturas e esculturas ganharam autonomia quando foram transferidas dos
palácios, das igrejas para este lugar moderno, destinado exclusivamente
para abrigar as obras de arte, no final do século XVIII e início
do século XIX. Uma instituição comprometida com os valores
e o formalismo modernos questionados pelas manifestações contemporâneas
no seu propósito de recuperar a finalidade social da arte que foi um
fracasso nas vanguardas. O museu e a história da arte que são
os iniciadores da modernidade, são os responsáveis pela idéia
de arte como pensamos hoje, em SOBRE AS REINAS DO MUSEU.
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A partir da década
de 1960 com manifestações artísticas como as serigrafias
do artista pop Rauschenberg e as instalações do minimalista
Richard Serra os museus foram questionados ideologicamente e passaram por
transformações. Crimp na sua versão de pós-modernidade,
a fotografia, esse novo processo de formar imagens através da seleção
e do enquadramento, é a arte pós-moderna por excelência.
Ela chega ao museu, adquire sua autonomia, como as expressões artísticas
tradicionais, ganha destaque no mercado de arte, alterando valores como a
aura das obras de arte, como aconteceu também com a produção
de arte na década de 1970 com o predomínio da arte conceitual.
Mas o fantasma da aura envolveu a fotografia, a pop, o minimalismo e a pós-modernidade
de Crimp.
Se a fotografia e o radicalismo
do minimalismo e da arte conceitual contrariaram a ideologia do museu, não
chegaram a abalar suas estruturas. Como filhos rebeldes que um dia retornam
a casa paterna. Quem legitima a autenticidade de obra de arte dessas manifestações?
O pós-moderno de Crimp começa com a perversão do moderno
provocado pela fotografia, recorre ao minimalismo chega à arte contemporânea,
sai ou interroga o museu, mas precisa do aval desta "instituição
paradigmática". Para os minimalistas basta uma chapa de aço,
um objeto fabricado em escala industrial sem nenhuma intervenção
da mão do artista, sem aura, colocada em um determinado local, na praça
em confronto com a arquitetura e o espaço público, um ato determinado
apenas pela vontade do artista, a arte não nega a verdade de nossa
condição social. Mas o museu acolhe sempre intervenções
como estas, através de documentos, restaurando e sustentando a condição
de arte nas suas ruínas imaginárias.
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